Efeitos da Suplementação Dietética de Nitrato no Desempenho dos Exercícios de Resistência.

por INSTITUTO HI-NUTRITION / 26 Janeiro 2018 / Estudo Científico

Introdução

Por meio da manipulação dietética, diversos macronutrientes e micronutrientes diferentes foram identificados como tendo a capacidade de melhorar o desempenho do exercício. Esses suportes nutricionais ergogênicos permitem que os atletas atinjam além das habilidades alcançadas pelo treinamento sozinho, podendo ser a diferença entre a vitória ou derrota. Por esse motivo, explorar e avaliar a eficácia de nutrientes ergogênicos é um processo valioso a se realizar.  

Pesquisas recentes sobre o consumo de nitratos e seu papel no funcionamento vascular levaram esses nutrientes a se tornarem progressivamente mais populares entre os atletas que buscam aumentar seu desempenho físico. Outros processos fisiológicos que podem ser alterados para proporcionar um efeito ergogênico através da ingestão de nitratos incluem a contratilidade muscular esquelética, eficiência mitocondrial,  homeostase da glicose e a respiração.

Fontes Naturais de Nitrato

Os vegetais de folhas verdes e raízes constituem a principal fonte dietética de nitrato. Os vegetais com uma concentração de nitrato muito alta (> 250mg / 100g)  incluem espinafre, rúcula, agrião, alface, aipo, rabanete, acelga-suiça, cerefólio e beterraba vermelha. Uma vez ingerido, ele é reduzido ao óxido nítrico (NO) através da via nitrato - nitrito-NO, aumentando o nível de NO no sangue e nos tecidos. O NO é uma potente molécula de sinalização que desempenha um papel fundamental na vasodilatação, relaxando o músculo liso e, subsequentemente, melhorando a circulação sanguínea.

Estudo Clínico

O primeiro estudo que observou os benefícios da ingestão dietética de nitrato no exercício foi conduzido por Larsen et al.. Este estudo randomizado, duplo-cego, crossover e placebo controlado envolveu  nove homens bem treinados que realizaram ciclos de taxa de trabalho progressivos após suplementação crônica de nitrato de sódio (0,1 mmol ∙ kg-1 / dia durante três dias). 

 

O consumo de nitrato resultou em um custo de oxigênio (O2) significativamente menor durante os exercícios, em que o pico de absorção de oxigênio (𝑉̇O2pico) variou entre 45-80%, sem aumentar a concentração de lactato no sangue, resultando em maior eficiência de exercícios.

 

A quantidade de suplementação de  nitrato utilizada no estudo de Larsen et al. se assemelha à encontrada em 150 - 250 g de vegetais ricos em nitrato. Suas descobertas foram  inesperadas porque, geralmente, considerava-se que o custo de O2 no exercicio em uma determinada taxa de trabalho tinha uma quantidade fixa entre os indivíduos, particularmente durante o ciclismo.

 

A observação de Larsen et al. instigou estudos adicionais que investigaram o efeito da suplementação dietética de nitrato no desempenho do exercício. As alterações fisiológicas relatadas incluem reduções da pressão arterial, da cinética de desoxihemoglobina muscular, da adoção de trifosfato de adenosina (ATP) e degradação de fosfocreatina (PCr), resultando em  uma maior eficiência contrátil muscular, redução do custo de O2 no exercício submáximo, e melhora do desempenho no exercício.

 

Uma revisão sistemática prévia e meta-análise realizada em 2013 examinou os efeitos da suplementação dietética de nitrato no desempenho do exercício de resistência. Após examinar 17 estudos, a meta-análise concluiu que a dieta de nitrato mostrou  trazer um pequeno benefício no teste de tempo (TT) (ES = 0,11, p> 0,05, n = 9), efeito moderado nos ensaios de tempo de exaustão (TTE) (ES = 0,79, p <0,01, n = 3) e um ligeiro benefício no desempenho do teste de exercício graduado (GXT) (ES = 0,23, p> 0,05, n = 7).

Objetivo

O objetivo desta revisão sistemática e meta-análise foi atualizar, avaliar criticamente e resumir a qualidade metodológica da literatura sobre a suplementação dietética de nitrato e o desempenho no exercício de resistência. Um objetivo secundário foi determinar se os resultados do desempenho são afetados por potenciais variáveis ​​do moderador do estudo, como o tipo de exercício e duração, protocolo, duração da dose e quantidade, tipo de nitrato, nível de aptidão do sujeito e alteração no nitrito (NO2-).

Critérios de Avaliação

O principal critério de avaliação foram as alterações no desempenho do exercício após a suplementação dietética de nitrato. Os efeitos da suplementação foram calculados no final da avaliação do exercício. O teste de Tempo (TT) foi definido como uma corrida cronometrada com distância específica. O teste de tempo de exaustão foi definido como um incremento de passo único na taxa de trabalho, que é continuada até o esgotamento. A avaliação do desempenho no exercício graduado foi definida como um teste incremental de múltiplas fases ou rampa contínua até a exaustão.

 

Os estudos utilizados nesta revisão foram publicados entre 2007 e 2015. 3 tipos de análises de desempenho foram utilizados em todos os estudos, com 38 examinando o efeito da suplementação com nitrato vs placebo no TT, 22 usando o protocolo de TTE e 16 incluindo GXT. 61 triagens mostraram melhora no desempenho após a suplementação com nitrato, dos quais 29 foram estatisticamente significantes (p < 0.05). 20 das 22 triagens do TTE mostraram uma melhora média no desempenho (dos quais 16 apresentaram resultados significativos), assim como 27 de 38 triagens de TT e 14 de 16 de GXT (dos quais 7 e 5 melhoraram significativamente, respectivamente).

 

O ciclismo foi o método mais comum de exercício, utilizado em 44 dos 76 ensaios. 14 utilizaram corrida na esteira, 6 corrida em campo, 3 caiaque, 3 remo, 3 treinos de resistência na forma de extensão de joelhos, 1 mergulho subaquático, 1 caminhada, 1 manivela braço/perna. 8 triagens investigaram o desempenho físico em condições de hipóxia. Os exercícios duraram cerca de 1,5 a 137 minutos.

 

A maioria das triagens incluíram participantes com o consumo máximo de oxigênio (𝑉̇O2max) > 45 mL kg-1 min-1, variando de indivíduos fisicamente ativos, bem treinados e atletas de elite.

Consumo de Nitrato

Os estudos utilizaram diferentes tipos de suplementação dietética de nitrato, sendo a maioria delas suco de beterraba (n=58; 76%), água com nitrato, nitrato sódico ou potássico, extrato de pomegranate, gel de nitrato e porções de beterraba. As doses variaram de 4.1 mmol – 19.5 mmol/dia.

O período de intervenção variou de 30 minutos a 15 dias de suplementação, em que houve análise de intervenção aguda e crônica.

Resultados

  • A diferença média padronizada de 28 ensaios foi de -0.10 (95% Cl -0.27 - 0.06), indicando um pequeno efeito, mas não significativo, a favor da suplementação com nitrato nas medidas do desempenho no TT (p > 0.05);

  • A diferença média padronizada de 8 ensaios  foi de 0.25 (95% Cl -0.06 - 0.56), indicando um pequeno efeito, mas não significativo, a favor da suplementação com nitrato nas medidas do desempenho no GXT (p > 0.05) 

  • A diferença da média padronizada de 22 ensaios foi de 0,33 (95% Cl 0.15 - 0,50), indicando um efeito estatisticamente leve a moderado a favor da suplementação dietética de nitrato nas medidas de desempenho no TTE (p <0,01);

  • Nenhum efeito adverso relevante foi observado, embora tenham sido relatados urina e fezes avermelhadas, intolerância ao suco de beterraba e desconfortos gastrointestinais.


Discussão

A análise combinada da influência do nitrato no TTE mostrou um efeito significativamente maior quando comparada a um controle placebo. Entretanto, os pequenos efeitos da suplementação no desempenho do TT e GXT não foram  estatisticamente significantes. A conclusão principal dessa meta-análise foi os efeitos diferenciados que a suplementação dietética com NO3 teve nos protocolos TT e TTE.

 

Esta revisão e análise quantitativa concluiu que há evidências claras de que a suplementação dietética com NO3 pode aumentar a aptidão do exercício aeróbio medida pelos protocolos TTE.

Hipoteticamente, o desempenho no exercício físico nos protocolos TTE aumenta devido ao custo reduzido de O2 em todo o corpo no exercício com taxa de trabalho constante após a suplementação dietética de nitrato. Bailey et al. relataram que a diminuição do custo de O2 correlaciona-se com um custo reduzido de ATP na produção de força muscular, criando uma redução na degradação da fosfocreatina, além de uma redução do acúmulo de fosfato de adenosina e fosfato inorgânico durante exercícios de baixa e alta intensidade (extensões de joelho) após a suplementação de suco de beterraba em comparação com um placebo. Além disso, a suplementação com  suco de beterraba reduziu significativamente a hidrólise de ATP muscular durante  os exercícios de baixa e alta intensidade. Os pesquisadores especularam que os possíveis mecanismos por trás da diminuição in vivo do custo de O2 no exercício após a suplementação de nitrato são predominantemente resultado de uma redução no custo total de ATP na produção de força muscular e não um aumento na relação fosfato mitocondrial/O2. Alternativamente, Jones sugere que a diminuição do 𝑉̇O2 e da fosfocreatina no estado estacionário após a suplementação poderia ser devido à melhoria simultânea da eficiência mitocondrial e da oxigenação muscular. Esses achados sugerem que um protocolo de fadiga, como TTE, pode ser mais adequado para estudos de nitrato na dieta, observando os mecanismos fisiológicos que afetam o desempenho e a capacidade no exercício.


O efeito ergogênico do nitrato foi mais evidente quando os testes TTE foram utilizados como o principal critério de avaliação. Os protocolos que envolvem o exercício até o esgotamento foram sugeridos  para ter uma maior variabilidade do que os TT. Em um estudo de Saris et al.,  tempos de exaustão em 5 ensaios resultaram em um alto coeficiente de variação (CV) de 26,6%, com uma faixa de CV individual de 17,4% para 39,5%. No mesmo estudo, dois protocolos de TT produziram um CV de 3,5% e 3,4% e o CV individual variou de 1,7% para 5,8% e 0,8% para 5,8%, respectivamente. Assim, parece inicialmente surpreendente que os efeitos ergogênicos foram significativos apenas quando as medidas mais variáveis de TTE ​​foram  usadas. No entanto, Amann et al. descobriram sensibilidades semelhantes entre os protocolos TT e TTE, sugerindo que os TTE são uma opção válida quando se determinam os efeitos de uma intervenção sobre o desempenho de resistência. Jeukendrup et al. sugeriram que a diferença na variabilidade entre os protocolos poderia ser atribuída às diferenças na influência de fatores psicológicos, como a motivação e a monotonia na medida do resultado, e que os protocolos TTE medem a capacidade de resistência em vez do desempenho do exercício, o que é medido mais eficazmente pelos protocolos TT. É necessário determinar por que a análise atual mostra um efeito ergogênico maior do nitrato dietético quando os protocolos TTE são usados ​​como a medida de resultado e não os protocolos TT.

Vale ressaltar que um protocolo TT foi sugerido como a escolha mais adequada e confiável para uma intervenção que se assemelhe ao desempenho do exercício de resistência na vida real e, portanto, esses protocolos poderiam ser a opção mais válida ecologicamente ao avaliar o impacto da suplementação nitrato no desempenho.

Apesar de não ser estatisticamente significativa, a melhora de 0,8% no desempenho do TT após a suplementação dietética de nitrato pode ser significativa para os atletas. Colocando esse resultado em perspectiva, a diferença entre o primeiro e o décimo segundo lugar na final de 10.000  metros dos homens nos Jogos Olímpicos de Londres de 2012 foi de apenas 0,66%; portanto, ainda é prudente recomendar essa suplementação para auxiliar o desempenho do exercício de resistência. Além disso, o uso dessa suplementação para aumentar o TTE durante o treinamento pode resultar na execução de mais intervalos, aumentando as adaptações fisiológicas que melhoram o desempenho do TT.

Uma dieta crônica parece mostrar um resultado de desempenho ligeiramente melhor do que a dieta aguda no protocolo TTE (ES: 0,29; p = 0,11).

2 estudos que compararam diretamente as doses crônicas e agudas no desempenho descobriram que a ingestão crônica (15 dias) de suco de beterraba teve um maior efeito sobre a potência de saída de pico, o limiar de troca gasosa e a pressão arterial em comparação com uma dosagem aguda (2,5 horas antes do teste). Boorsma et al. também relataram uma ligeira melhora no desempenho do TT após um protocolo de dosagem crônica (8 dias), enquanto que os participantes que consumiram uma dose aguda (2,5 horas antes do teste) não melhoraram a eficiência ou o desempenho do exercício.

 

Levando em consideração os resultados da meta-análise e também esses estudos, parece que a dosagem crônica produz um maior benefício do que a aguda; no entanto, pesquisas adicionais são necessárias para entender qual o período de suplementação dietética de nitrato provoca o melhor resultado.

 

O único estudo que comparou diretamente os níveis de aptidão aeróbica individual com a suplementação dietética de nitrato observou melhorias positivas em indivíduos sedentários e moderadamente treinados, mas não em indivíduos altamente treinados.

 

Os achados desta meta-análise demonstram que há evidências suficientes para sugerir que a suplementação dietética de nitrato pode melhorar o desempenho do exercício de resistência; no entanto, mais testes experimentais precisam ser conduzidos com um foco de pesquisa em  potenciais variáveis ​​ para fornecer conclusões definitivas e recomendações para a suplementação de nitrato e seu efeito no desempenho do exercício de resistência.

Por exemplo, pesquisas realizadas por Hernandez et al. a respeito do efeito dessa suplementação observaram uma maior força contrátil em músculos de contração rápida em camundongos suplementados com nitrato. Esses resultados se traduzem como uma ativação de fibras musculares de contração rápida em uma freqüência mais baixa, mas que ainda alcançam a mesma força após a suplementação. Portanto, foi necessário um esforço reduzido para executar uma determinada tarefa.

 

A suplementação dietética de nitrato parece ser particularmente eficaz na melhoria das respostas fisiológicas no músculo do tipo II, podendo levar a uma produção de força aumentada a altas velocidades de contração, e a um melhor desempenho durante exercícios intermitentes de alta intensidade e curta duração.

Conclusão

Os resultados desta revisão sistemática e meta-análise forneceram  provas convincentes de que a suplementação dietética de nitrato promove um resultado positivo ao testar a capacidade de exercício de resistência, mas é menos provável que seja eficaz para o desempenho do TT.  São necessários mais trabalhos para entender quais as melhores dosagens que iriam beneficiar a população e em que condições os nitratos provavelmente seriam mais efetivos na melhora do desempenho.

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